sábado, novembro 04, 2017

Forty Guns (Samuel Fuller, 1957)

 Jessica Drummond (Barbara Stanwyck) alisando a "arma" de Griff Bonnell (Barry Sullivan)

Jessica Drummond: I´m not interested in “you”, Mr. Bonnell. It´s your trademark.
Jessica Drummond: May I feel it?
Griff Bonnell: Uh-uh.
Jessica Drummond:Just curious.
Griff Bonnell: It might go off in your face.
Jessica Drummond: I´ll take a chance.

Fala Comigo (Felipe Sholl, 2016)


De tudo que tenho visto recentemente, um filme brasileiro me chamou bastante atenção. Havia acompanhado parte da repercussão de Fala Comigo nesta mesma época do ano passado no Festival do Rio e sabia que a jornada seria proveitosa, mas não estava preparado para a sobriedade com que o tema da diferença de idade entre amantes seria tratado – revelado na própria sinopse do filme. O título diz respeito a todos os personagens da família retratada, que de uma forma ou de outra vivem solitários, embora convivam diariamente no mesmo espaço esforçando-se para evitar o contato entre si. Como eu estava absolutamente sem inspiração para escrever, reproduzo o texto do Luiz Zanin Oricchio, capaz de despertar o interesse dos poucos que passam por essas bandas.

Por Luiz Zanin Oricchio

De início, o título do filme de Felipe Sholl, Fala Comigo, faz vibrar a recordação de Fale com Ela (2002), de Pedro Almodóvar. Neste, para quem se lembra, a questão era conversar com uma pessoa em coma, sem qualquer certeza de estar sendo ouvido, movendo-se apenas pelo imperativo categórico de tratar um ser vivo como vivo, ainda que em estado suposto vegetativo.

Agora, no filme brasileiro, a situação é outra, mas ainda assim continuamos no domínio do poder da fala, que somente os ingênuos ou muito ignorantes supõem servir apenas para se comunicar. Falar, escutar e sentir-se ouvido são necessidades humanas básicas, que nada têm a ver com a comunicação mas com a dimensão subjetiva, pura e simples.

Daí que temos, em Fala Comigo, primeiro, uma situação estruturada por essa dimensão da fala, que é a psicanálise. Clarice (Denise Fraga) é psicanalista e Angela (Karine Teles) é uma de suas clientes. Cabe a uma ouvir e a outra falar. Acontece que a doutora Clarice (Denise Fraga) tem um filho adolescente, Diogo (Tom Karabachian), com o hábito de ligar para as pacientes da mãe e manter com elas conversas eróticas. Esta é outra dimensão da fala, às vezes ignorada, a de servir como veículo de erotismo. Não apenas dizemos que determinadas vozes são “sensuais”, como sabemos da existência de serviços de atendimento telefônico para este fim, espécies de Call Centers do amor.

O filme é bem encaminhado em sua proposta original e trabalha em grau suave de erotismo, sem descambar para a grosseria, mas também sem travar com o puritanismo. Mesmo porque, em etapa posterior, o filme deverá mexer com outro tabu, um dos raros que ainda subsistem no âmbito da sexualidade em nossa sociedade tida como liberada: o preconceito com a diferença de idade entre os amantes. Homem velho com mocinha é tachado de lobo, mas ainda é tolerado por uma questão de machismo. Quando se trata de mulher mais velha com jovem, o caso é pior e sofre ainda mais resistência social.

Há então esse subtema interessante: mesmo pessoas inteligentes e avançadas podem se tornar conservadoras e intolerantes quando o assunto é a sexualidade. Em especial, a sexualidade dos filhos, vista como ameaçadora. De bom ritmo, bem filmado, Fala Comigo toca nesses pontos sensíveis sem qualquer didatismo, como a dizer que a modernidade em determinados assuntos é mais aparente que real.

sábado, setembro 30, 2017

Raw (Julia Ducournau, 2016)



O texto de Christy Lemire em março deste ano para o site de Roger Ebert referente ao filme Raw (2016) acionou o meu radar para a sua existência. Além da crítica entusiasmada que me ganhou logo de cara, Matt Fagerholm entrevistou a diretora Julia Ducournau brevemente, de forma que ela esclarece algumas das opções adotadas para a sua realização, cujo roteiro também é de sua autoria. Colocando de forma simples, o filme explora o desabrochar sexual de uma adolescente, criada a base de comida vegetariana, que descobre o gosto incomum pela carne humana. Sim, o filme possui cenas de canibalismo, atenuadas pela sensibilidade ímpar com que o assunto é tratado – o contraste do vermelho do sangue com as cores frias do outono/inverno no campus universitário gera o impacto desejado. A abordagem é mais íntima do que propriamente gráfica.

Uma das belas lembranças que o filme deixa com o espectador é a forte relação desenvolvida pelas duas irmãs, com ótimas cenas de aproximação, repelência, cumplicidade, amor e ódio. Todo o arsenal de emoções que envolvem a relação fraternal é muito bem explorado por Ducournau, que estaria longe de despertar o efeito desejado não fossem as contribuições significativas das duas intérpretes Garance Marillier (Justine) e Ella Rumpf (Alexia).

Em vários momentos o filme me lembrou Deixa Ela Entrar (Tomas Alfredson, 2008), sobretudo na relação que ambos estabelecem com suas protagonistas ao tentar equilibrar o instinto animal que se acerca delas, proporcionando os rompantes de violência, com uma dose desejável de inocência, no pouco domínio exercido sobre o desejo carnal sobrepujante/incontrolável que se apropria delas. A presença em cena das protagonistas já é em si ameaçadora, proporcionando uma insegurança crescente sem que consigamos distinguir o comportamento que antecede um gesto singelo de um ataque fatal.

Outro acerto da autora foi ambientar o filme na aurora da fase adulta, quando do ingresso da protagonista na faculdade. O afloramento do instinto canibal nela encontra a circunstância perfeita no contexto da caloura experimentando o primeiro contato com a vida universitária. O ritmo intenso com que a menina põe à prova toda a repressão da sua criação e se disponibiliza para os rituais característicos desse momento chave da vida adulta são tratados quase como um filme de terror – e aí outra referência se faz evidente, Carrie, a Estranha (Brian de Palma, 1976). As festas, os trotes, as amizades, o bullying, o sexo representam o pano de fundo perfeito para a ambientação desta história.

quinta-feira, agosto 31, 2017

Bingo - O Rei das Manhãs (Daniel Rezende, 2017)


Eu fui para a sessão de Bingo com a crítica de Isabela Boscov na cabeça. Para os que não leram, ela compara o feito de Daniel Rezende na direção com o lançamento de Cidade de Deus (2002), do qual o próprio Daniel participou como montador, afirmando que não houve nada produzido no intervalo de tempo com impacto semelhante.

Mesmo eu não sendo um ferrenho defensor do filme de 2002, o fato é que ela é, trazendo Bingo para o mesmo pé de igualdade. Ainda que eu considere a importância atribuída exagerada, não posso desmerecer o entusiasmo da crítica, que compartilho de peito aberto, uma vez que o filme tem, realmente, qualidades de sobra.

Vladimir Brichta deve finalmente receber o reconhecimento pelo talento que transborda. Seus amigos e conterrâneos, Wagner Moura e Lázaro Ramos, devem estar orgulhosos do parceiro que sempre pairou na sombra e agora deve trilhar o caminho do estrelato. Merecido. Ele carrega o filme nas costas numa verdadeira tour de force, sem ofuscar o envolvimento dos outros personagens/atores, desenhados basicamente para servi-lo.

O cuidado com a qualidade da produção é exemplar. Desde os créditos de abertura, trazendo os tradicionais patrocinadores brasileiros numa reprodução de fita cassete dos anos 80, com os ruídos e falhas características desse formato, bem como a trilha sonora, que ajuda a ditar o ritmo do filme (o pessoal da Omelete traz a informação de que Rezende já fora DJ), até a fonte da legenda responsável por traduzir os diálogos do produtor americano do programa televisivo. Tudo a serviço de um mergulho na cultura pop dos anos 80.

Daniel rege toda essa parafernália saudosista com estilo, assessorado pelo diretor de fotografia Lula Carvalho, carregando nas cores, abusando das luzes (tem um diálogo entre o personagem Augusto,  Vladimir Brichta, e a mãe, Ana Lúcia Torres, que faz referência direta a esse aspecto) e dos movimentos de câmera, alguns notáveis, em completa sintonia com a linguagem adotada. O domínio da fluência narrativa e ritmo fazem a diferença.

sexta-feira, agosto 04, 2017

Invasão Zumbi (Sang-ho Yeon, 2016)


Já estou bem atrasado para uma postagem com esse conteúdo, mas mesmo assim ainda julgo que vale o registro. George A. Romero faleceu e ficamos órfãos do seu gênio, ainda que o gênero ao qual ele permanecerá para sempre atrelado, o filme de zumbis, não pare de expandir. Cada novo exemplar que chega ao mercado aproveita parte das regras criadas por Romero, ao mesmo tempo em que procura incrementar o gênero com novas variações.

Enquanto alguns buscam oxigenar o formato - Meu Namorado é um Zumbi (2013, Jonathan Levine), Zombieland (2009, Ruben Fleisher), etc., outros resultam em variações menos inspiradas - Guerra Mundial Z (2013, Marc Forster). Às vezes, o sopro de criatividade vem de onde menos se espera, como no recente Invasão Zumbi (2016), do sul coreano Sang-ho Yeon.

Nele, um grupo de pessoas em deslocamento entre duas cidades sofre um ataque zumbi, justamente quando o trem que os conduzia realiza uma parada em uma das estações intermediárias do seu itinerário. A cena que retrata esse episódio é grandiloquente, sem nunca perder de vista o envolvimento emocional do público com os seus protagonistas. Dai em diante o filme se converte numa longa escapada dos sobreviventes do iminente massacre dos zumbis. Aqui, ao contrário da convenção iniciada por Romero, os cadavéricos se locomovem com extrema agilidade, sendo contidos apenas pela escuridão, numa sacada do roteiro muito bem explorada pela sequência dos túneis.

O desfecho também assume uma escala épica, com zumbis impressionantemente se empilhando a fim de conter o avanço do trem, carregando apenas os poucos sobreviventes dessa jornada fúnebre (embora bastante divertida). A última cena converte literalmente a luz no fim do túnel em esperança, ainda que, paradoxalmente, as armas empregadas do outro lado sejam mais letais.

quinta-feira, julho 06, 2017

O Congresso Futurista (Ari Folman, 2013)




Inclassificável. Não vejo outra forma de referenciar o filme se não for assim. É um exercício e tanto tentar antecipar o desfecho de O Congresso Futurista. Nem precisa chegar a tanto, o próprio encadeamento das cenas, sobretudo a parte em animação, não respeita uma sequência lógica. A corporação capitalista vence a queda de braço com o indivíduo confiscando-lhe a sua própria liberdade. Esse é o ponto de partida da narrativa, quando a atriz/personagem Robin Wright, depois de uma sequência de fracassos cinematográficos, se vê forçada a vender a sua imagem para o estúdio Miramount (qualquer semelhança não é mera coincidência), cuja intenção é captar seus movimentos em digital para posteriormente utilizá-los conforme bem entender.

O descontentamento com o status quo (seja num âmbito mais amplo, ao lidar com a complexidade do regime capitalista, ou numa esfera mais estreita, centrado na indústria cinematográfica) desfila em cores vivas, criando um atrito/contraste interessante entre a superfície e o conteúdo/significado das imagens. Não exagero ao comparar a parte em animação com os traços característicos do Studio Ghibli - as sequências são realmente inspiradas, vívidas, carregadas de um "peso existencial". O material é uma livre adaptação do livro O Congresso Futurológico (1971), de Stanislaw Lem, autor de Solaris, adaptado para o cinema por Andrei Tarkovski. A fonte de inspiração para Matrix (1999), dos irmãos Wachowski, fica bem mais clara.

Algumas sequências são realmente memoráveis:

- o monólogo de Harvey Keitel, longo porém absolutamente enigmático, ao inspirar o choro de Robin Wright para a sua devida captação digital - lembrou o antológico final do esquecido Cortina de Fumaça (Wayne Wang, 1995);

- a encenação irônica do célebre desfecho de Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964), com Robin Wright a "cavalgar" na bomba atômica grafada com a palavra "badass";

- o exato momento precedente da passagem do "live action" para a "animação", quando Robin Wright em carne e osso vê seu reflexo em animação no retrovisor do carro;

- a impagável caracterização de Tom Cruise.

domingo, junho 18, 2017

Dominik, Weerasethakul e Demy



O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (Andrew Dominik, 2007) - Esse é aquele filme que eu fui deixando, deixando, deixando até quase esquecer que existia. Até me espantei quando me dei conta do seu ano de produção. Que filmaço!!!!! As outras versões de Jesse James concentram-se mais no gozo, na adrenalina do outsider/outlaw. Elas exploram o mito, reafirmando-o. A versão de Andrew Dominik é mais soturna, amargurada (o que é a interpretação de Casey Affleck?), desconstruindo o mito. A ultima hora é agonia pura, desespero, que permanece mesmo depois do "assassinato". A longa cena da consumação do ato é a definição perfeita para a palavra aflição. A busca incessante por reconhecimento, totalmente frustrada, é sentida na primeira pessoa. Nós somos Robert Ford no último ato, desnorteados pela interpretação soberba de Casey Affleck, carregando o peso do mundo nas costas.





Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2016) - como classificar um filme como esse? O que são aquelas fontes de energia que alternam de cor no quarto dos soldados? Ou, o que são aquelas cores que iluminam algumas locações beirando um córrego, no que parece ser um amanhecer? Mesmo desconhecendo o significado dessas imagens, e dos personagens que habitam esse ecossistema, não tem como ficar indiferente ao "universo" de Apichatpong. A natureza e a espiritualidade, intrinsecamente ligadas, não figuram como material exótico em seu "universo", a força do seu cinema se nutre dessa associação rica em possibilidades, que requer uma sensibilidade à altura para a sua devida representação imagética.


Duas Garotas Românticas (Jacques Demy, 1967) - salve, salve Festival Varilux de Cinema Francês. É um privilégio assistir a um filme como esse em Ribeirão Preto, com a honrosa presença da minha esposa. Salvo engano, foi a primeira vez que o clássico do Festival aportou em Ribeirão. O filme é uma aula de como compor um quadro, um plano cinematográfico. É um festival de bom gosto a céu aberto, iluminação natural (não me recordo de ter visto um filme em que a luz solar estivesse tão presente), cores vivas pulsando na tela e alegria transbordante. A mais valiosa homenagem ao musical norte-americano já feita, contando inclusive com a presença do grande Gene Kelly. Tudo emoldurado sob a regência soberana de Michel Legrand, desfazendo a crença de que o jazz seja um som difícil de escutar.

domingo, junho 04, 2017

Cinema x Netflix

Talvez eu até esteja me tornando repetitivo, quando relato a minha dificuldade para acompanhar os lançamentos cinematográficos, sobretudo nos cinemas (com a minha frequência reduzida a duas vezes por mês, ou menos) eventualmente na televisão, limitadas a NET, Netflix ou NOW.

Mesmo sendo um ferrenho defensor da "experiência cinematográfica", não fossem essas facilidades da vida moderna, eu estava f... e mal pago. No meu período universitário, na década de 90, eu era refém da programação da TV aberta, limitado a poucas alternativas em variedade de títulos, bem como em seleção de línguas, cuja única opção existente era a dublagem. Se eu estivesse na faculdade hoje em dia, minha experiência universitária certamente seria outra, tanto pela ótica festiva quanto pela ótica dos estudos.

Ainda que eu compreenda o posicionamento de Pedro Almodóvar, no cargo de presidente do júri do Festival de Cannes deste ano, ao anunciar de antemão que não premiaria os filmes distribuídos via streaming, numa clara alusão a duas produções da Netflix em competição, sinto que a declaração, mesmo que compreensível, dado o contexto da celebração, tende a se tornar obsoleta em pouco tempo, uma vez que desconfio que esta lamentação seja fruto de uma experiência coletiva, não circunscrita exclusivamente à minha vivência.

Com a correria interminável do dia-a-dia, aliada a sensação permanente de que estamos atrasados em relação a tudo, a conveniência indiscutível dessas facilidades digitais, sempre prontas a nos trazer alguma alternativa, economiza um tempo precioso de que não mais dispomos.

Dois filhos na conta, uma empresa para administrar e a intenção de se aprofundar em um projeto de mestrado já são prioridades demais. Por mais que eu mesmo já tenha engrossado o coro da crítica a esses formatos, são eles que representam a essência da minha programação hoje. Ainda que não seja exatamente o caso, dá pra se defender com o velho ditado: "ruim com eles, pior sem eles".

domingo, abril 30, 2017

Martírio (Vincent Carelli, 2016)


Eu ainda gostaria de escrever brevemente sobre outras produções, aquelas que mais me chamaram a atenção nos últimos dois meses, mas vou deixar o espaço voltado para a sessão da semana passada de Martírio (Vincent Carelli, 2016), visto numa passagem relâmpago pela capital.

Eu havia me programado para publicar essa postagem na semana passada, junto com a anterior, de Ernst Lubitsch. Como a semana foi corrida, não tive tempo hábil para me dedicar a isso. Inicialmente, entraria apenas o texto de José Geraldo Couto, escrito no calor da descoberta, numa das primeiras de suas exibições, no Festival de Brasília do ano passado. Elas não poderiam ser mais precisas. Até que o Inácio Araújo publicou a sua impressão sobre o filme e embaralhou um pouco as coisas. Ainda que eu permaneça gostando dele, Inácio levantou uma questão muito importante, decorrente da forma adotada pelo diretor, que me causou a mesma impressão, sem que eu soubesse expressá-la com a mesma desenvoltura. O contraponto entre as duas opiniões é que vale a leitura.

Confesso que sempre fico na dúvida de republicar textos neste espaço, especialmente de pessoas que publicam suas opiniões ativamente e dependem delas para ganhar o seu sustento. Mesmo que exista o recurso do link, que leva direto ao espaço do autor, muitas vezes esses links expiram e eu acabo perdendo o contexto da citação. Embora esse espaço não seja visitado por muita gente, eu mesmo costumo acessar essas publicações para consultar o que eu havia escrito (bem como os autores citados) em determinado momento. Sem elas, esse espaço perde a função de existir.


A partir da luta dos Guarani-Kaiowá pela retomada de suas aldeias e territórios sagrados, Martírio constrói, ao longo de quase três horas, talvez o mais pungente retrato da tragédia indígena brasileira, ao lado de Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci. Este último é cinematograficamente superior, mas isso não vem ao caso aqui.
Organizando materiais captados desde as primeiras décadas do século XX, além de registros feitos pelo próprio Carelli nos últimos trinta anos e reportagens televisivas, o filme traça um itinerário de extermínio físico e cultural dos índios brasileiros (e não apenas dos Guarani-Kaiowá) por conta de um desenvolvimento etnocêntrico e predatório.
No superlotado Cine Brasília, o público participou ativamente da sessão: aplaudiu, vaiou e xingou em cena aberta e, no final, ovacionou o filme por vários minutos. Essa catarse coletiva não esconde uma contradição angustiante. Os momentos que mais suscitaram as reações ruidosas da plateia foram as discussões sobre demarcação de terras no Congresso Nacional e um apavorante “Leilão da Resistência” promovido por ruralistas e políticos ligados ao agronegócio em Mato Grosso do Sul. Os discursos truculentos e retrógrados mais vaiados pelo público do cinema eram justamente os mais aplaudidos na tela pelos parlamentares e representantes ruralistas.
O divórcio entre o mundo do cinema e o mundo da política institucional, que se acentuou nos últimos tempos com os imbróglios envolvendo o Ministério da Cultura, a Cinemateca Brasileira, a escolha do representante brasileiro no Oscar etc., parece ter atingido um ponto crítico no atual festival de Brasília. O “Fora Temer” bradado no palco e na plateia do Cine Brasília a cada sessão é apenas um detalhe, a ponta do iceberg, a face visível de uma cisão mais profunda.
Há nos filmes exibidos, nos debates e nas reações do público uma energia de transformação que parece não encontrar eco nem acolhida nos edifícios oficiais bem próximos dali. Desembocando em angústia ou em catarse imediata, essa energia frustrada talvez fale muito sobre as limitações do cinema em seu afã de mudar o mundo. O sentimento generalizado é de resistência às trevas ao redor. “Todas as canções inutilmente; todas as canções eternamente”, canta Milton Nascimento em “Minas Gerais”. A ideia é essa.

Não é a discordância com vários, admiráveis colegas que me força a escrever aqui, e sim a percepção de que, não fosse o digital, Carelli teria feito de “Martírio” um filme excelente.
O digital é excelente, mas tem propiciado um hábito pouco animador: o esticamento artificial dos filmes. Como o material é barato, torna-se fácil. Como é rico em vários aspectos, torna-se difícil cortá-lo.
Tenho vistos longas que dariam bons curtas. Vi filmes que, concebidos para ser curtas, tornaram-se longas.
“Martírio” poderia ser até mesmo um filme curtíssimo. O material de arquivo bastaria, aliás: aquele jovem índio desajeitado, vestido de terno, com uma senhora tipo 10 mais elegantes ao lado, resume nossa política indigenista.
Carlos Adriano faria o diabo, só com essa imagem.
Mas há também a fala dos índios. As circunstâncias, que remontam à Guerra do Paraguai, à interminável guerra, como bem lembraria o Rosemberg (“Guerra do Paraguay”).
Sim, a situação dos índios é um horror. Desses e de outros. Coincidência ou não, já vi diversos sobre o extermínio provocado pelo contato e, depois, pela expropriação de suas terras e de sua cultura.
Isso não me leva a acreditar que um filme ineficaz, repetitivo, se torne eficaz por isso. 
Andrea Tonacci, que fez filmes belíssimos a respeito dos índios, com os índios, entre os índios, não fez nada disso.
Outro caso: o segmento de Marco Becchis para “Mundo Invisível”, em que mostra um grupo de índios com suas vestes clássicas em uma floresta. Mas à medida que se movem, percebemos que a floresta não é tão floresta assim, há sinais de civilização ali. Eles caminham um pouco mais, ruídos surgem mais claros… Breve sabemos que estão no Parque Trianon, na av. Paulista, em frente ao Masp.
Se continuasse um pouco, o filme poderia ter promovido o encontro entre esses índios e seu espelho: esses outros, esfarrapados, despossuídos, expropriados de suas culturas, que vivem à beira da estrada vendendo cacarecos.
Lembro desses momentos lancinantes porque eles também estão em “Martírio”. Mas o empenho em mostrar tudo, em lugar de montar, de cortar, de concentrar, parece fazer suas virtudes evaporarem.
Na minha visão, o amor à causa às vezes é tão grande que termina por arruinar o filme. Me parece que é o caso aqui.

A Viúva Alegre (Ernst Lubitsch, 1934)




Quase dois meses sem passar por esse espaço. Felizmente não foi por falta de filme; alternativas para escrever não me faltaram. Foi puramente escassez de tempo mesmo.

É sempre bom voltar aos clássicos, pra não dizer necessário, já que nos permite colocar as coisas em melhor perspectiva. O que dizer de um Lubitsch então? Essa foi uma das vezes em que o "Lubitsch touch" ficou mais óbvio pra mim. Honestamente, não esperava tanto de A Viúva Alegre, mas fiquei absolutamente encantado com a safadeza do diretor. O tema poderia ser desenvolvido de forma mais pesada - a versão da peça filmada por Eric Von Stroheim ao que tudo indica tem essa pegada - mas na mão de Lubitsch quase levita de tão leve.

A cena em que o mulherengo Danilo (Maurice Chevalier) é flagrado pelo Rei (George Barbier) em seus aposentos flertando com a Rainha (Una Merkel), rende a mais espirituosa sequência de adultério que eu já vi. Tá certo que é um mundo de faz de conta, em que vale tudo, mas mesmo assim ela permanece irresistível. Sem contar que a construção da gag em que o Rei se dá conta da sua condição de corno é puramente cinematográfica.

Existe um charme que perpassa toda a produção, muito pela contribuição dos atores, sobretudo os personagens secundários, que dá um refinamento desejável ao resultado final. Vale lembrar que o Código Hays passou a vigorar pouco depois do seu lançamento, poupando a produção da censura temática a que certamente ela estaria sujeita (adultério sendo uma delas).

No mesmo dia eu ainda vi A Mulher de Verdade (1943, Preston Sturges), na expectativa de que as experiências seriam semelhantes. Não me causou o mesmo entusiasmo, o que não significa que eu não tenha gostado. O olhar para os personagens secundários é preciosíssimo, no mesmo nível dos filmes de Lubitsch. Só não me pareceu tão inspirado.