quinta-feira, julho 06, 2017

O Congresso Futurista (Ari Folman, 2013)




Inclassificável. Não vejo outra forma de referenciar o filme se não for assim. É um exercício e tanto tentar antecipar o desfecho de O Congresso Futurista. Nem precisa chegar a tanto, o próprio encadeamento das cenas, sobretudo a parte em animação, não respeita uma sequência lógica. A corporação capitalista vence a queda de braço com o indivíduo confiscando-lhe a sua própria liberdade. Esse é o ponto de partida da narrativa, quando a atriz/personagem Robin Wright, depois de uma sequência de fracassos cinematográficos, se vê forçada a vender a sua imagem para o estúdio Miramount (qualquer semelhança não é mera coincidência), cuja intenção é captar seus movimentos em digital para posteriormente utilizá-los conforme bem entender.

O descontentamento com o status quo (seja num âmbito mais amplo, ao lidar com a complexidade do regime capitalista, ou numa esfera mais estreita, centrado na indústria cinematográfica) desfila em cores vivas, criando um atrito/contraste interessante entre a superfície e o conteúdo/significado das imagens. Não exagero ao comparar a parte em animação com os traços característicos do Studio Ghibli - as sequências são realmente inspiradas, vívidas, carregadas de um "peso existencial". O material é uma livre adaptação do livro O Congresso Futurológico (1971), de Stanislaw Lem, autor de Solaris, adaptado para o cinema por Andrei Tarkovski. A fonte de inspiração para Matrix (1999), dos irmãos Wachowski, fica bem mais clara.

Algumas sequências são realmente memoráveis:

- o monólogo de Harvey Keitel, longo porém absolutamente enigmático, ao inspirar o choro de Robin Wright para a sua devida captação digital - lembrou o antológico final do esquecido Cortina de Fumaça (Wayne Wang, 1995);

- a encenação irônica do célebre desfecho de Dr. Fantástico (Stanley Kubrick, 1964), com Robin Wright a "cavalgar" na bomba atômica grafada com a palavra "badass";

- o exato momento precedente da passagem do "live action" para a "animação", quando Robin Wright em carne e osso vê seu reflexo em animação no retrovisor do carro;

- a impagável caracterização de Tom Cruise.

domingo, junho 18, 2017

Dominik, Weerasethakul e Demy



O Assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford (Andrew Dominik, 2007) - Esse é aquele filme que eu fui deixando, deixando, deixando até quase esquecer que existia. Até me espantei quando me dei conta do seu ano de produção. Que filmaço!!!!! As outras versões de Jesse James concentram-se mais no gozo, na adrenalina do outsider/outlaw. Elas exploram o mito, reafirmando-o. A versão de Andrew Dominik é mais soturna, amargurada (o que é a interpretação de Casey Affleck?), desconstruindo o mito. A ultima hora é agonia pura, desespero, que permanece mesmo depois do "assassinato". A longa cena da consumação do ato é a definição perfeita para a palavra aflição. A busca incessante por reconhecimento, totalmente frustrada, é sentida na primeira pessoa. Nós somos Robert Ford no último ato, desnorteados pela interpretação soberba de Casey Affleck, carregando o peso do mundo nas costas.





Cemitério do Esplendor (Apichatpong Weerasethakul, 2016) - como classificar um filme como esse? O que são aquelas fontes de energia que alternam de cor no quarto dos soldados? Ou, o que são aquelas cores que iluminam algumas locações beirando um córrego, no que parece ser um amanhecer? Mesmo desconhecendo o significado dessas imagens, e dos personagens que habitam esse ecossistema, não tem como ficar indiferente ao "universo" de Apichatpong. A natureza e a espiritualidade, intrinsecamente ligadas, não figuram como material exótico em seu "universo", a força do seu cinema se nutre dessa associação rica em possibilidades, que requer uma sensibilidade à altura para a sua devida representação imagética.


Duas Garotas Românticas (Jacques Demy, 1967) - salve, salve Festival Varilux de Cinema Francês. É um privilégio assistir a um filme como esse em Ribeirão Preto, com a honrosa presença da minha esposa. Salvo engano, foi a primeira vez que o clássico do Festival aportou em Ribeirão. O filme é uma aula de como compor um quadro, um plano cinematográfico. É um festival de bom gosto a céu aberto, iluminação natural (não me recordo de ter visto um filme em que a luz solar estivesse tão presente), cores vivas pulsando na tela e alegria transbordante. A mais valiosa homenagem ao musical norte-americano já feita, contando inclusive com a presença do grande Gene Kelly. Tudo emoldurado sob a regência soberana de Michel Legrand, desfazendo a crença de que o jazz seja um som difícil de escutar.

domingo, junho 04, 2017

Cinema x Netflix

Talvez eu até esteja me tornando repetitivo, quando relato a minha dificuldade para acompanhar os lançamentos cinematográficos, sobretudo nos cinemas (com a minha frequência reduzida a duas vezes por mês, ou menos) eventualmente na televisão, limitadas a NET, Netflix ou NOW.

Mesmo sendo um ferrenho defensor da "experiência cinematográfica", não fossem essas facilidades da vida moderna, eu estava f... e mal pago. No meu período universitário, na década de 90, eu era refém da programação da TV aberta, limitado a poucas alternativas em variedade de títulos, bem como em seleção de línguas, cuja única opção existente era a dublagem. Se eu estivesse na faculdade hoje em dia, minha experiência universitária certamente seria outra, tanto pela ótica festiva quanto pela ótica dos estudos.

Ainda que eu compreenda o posicionamento de Pedro Almodóvar, no cargo de presidente do júri do Festival de Cannes deste ano, ao anunciar de antemão que não premiaria os filmes distribuídos via streaming, numa clara alusão a duas produções da Netflix em competição, sinto que a declaração, mesmo que compreensível, dado o contexto da celebração, tende a se tornar obsoleta em pouco tempo, uma vez que desconfio que esta lamentação seja fruto de uma experiência coletiva, não circunscrita exclusivamente à minha vivência.

Com a correria interminável do dia-a-dia, aliada a sensação permanente de que estamos atrasados em relação a tudo, a conveniência indiscutível dessas facilidades digitais, sempre prontas a nos trazer alguma alternativa, economiza um tempo precioso de que não mais dispomos.

Dois filhos na conta, uma empresa para administrar e a intenção de se aprofundar em um projeto de mestrado já são prioridades demais. Por mais que eu mesmo já tenha engrossado o coro da crítica a esses formatos, são eles que representam a essência da minha programação hoje. Ainda que não seja exatamente o caso, dá pra se defender com o velho ditado: "ruim com eles, pior sem eles".

domingo, abril 30, 2017

Martírio (Vincent Carelli, 2016)


Eu ainda gostaria de escrever brevemente sobre outras produções, aquelas que mais me chamaram a atenção nos últimos dois meses, mas vou deixar o espaço voltado para a sessão da semana passada de Martírio (Vincent Carelli, 2016), visto numa passagem relâmpago pela capital.

Eu havia me programado para publicar essa postagem na semana passada, junto com a anterior, de Ernst Lubitsch. Como a semana foi corrida, não tive tempo hábil para me dedicar a isso. Inicialmente, entraria apenas o texto de José Geraldo Couto, escrito no calor da descoberta, numa das primeiras de suas exibições, no Festival de Brasília do ano passado. Elas não poderiam ser mais precisas. Até que o Inácio Araújo publicou a sua impressão sobre o filme e embaralhou um pouco as coisas. Ainda que eu permaneça gostando dele, Inácio levantou uma questão muito importante, decorrente da forma adotada pelo diretor, que me causou a mesma impressão, sem que eu soubesse expressá-la com a mesma desenvoltura. O contraponto entre as duas opiniões é que vale a leitura.

Confesso que sempre fico na dúvida de republicar textos neste espaço, especialmente de pessoas que publicam suas opiniões ativamente e dependem delas para ganhar o seu sustento. Mesmo que exista o recurso do link, que leva direto ao espaço do autor, muitas vezes esses links expiram e eu acabo perdendo o contexto da citação. Embora esse espaço não seja visitado por muita gente, eu mesmo costumo acessar essas publicações para consultar o que eu havia escrito (bem como os autores citados) em determinado momento. Sem elas, esse espaço perde a função de existir.


A partir da luta dos Guarani-Kaiowá pela retomada de suas aldeias e territórios sagrados, Martírio constrói, ao longo de quase três horas, talvez o mais pungente retrato da tragédia indígena brasileira, ao lado de Serras da Desordem (2006), de Andrea Tonacci. Este último é cinematograficamente superior, mas isso não vem ao caso aqui.
Organizando materiais captados desde as primeiras décadas do século XX, além de registros feitos pelo próprio Carelli nos últimos trinta anos e reportagens televisivas, o filme traça um itinerário de extermínio físico e cultural dos índios brasileiros (e não apenas dos Guarani-Kaiowá) por conta de um desenvolvimento etnocêntrico e predatório.
No superlotado Cine Brasília, o público participou ativamente da sessão: aplaudiu, vaiou e xingou em cena aberta e, no final, ovacionou o filme por vários minutos. Essa catarse coletiva não esconde uma contradição angustiante. Os momentos que mais suscitaram as reações ruidosas da plateia foram as discussões sobre demarcação de terras no Congresso Nacional e um apavorante “Leilão da Resistência” promovido por ruralistas e políticos ligados ao agronegócio em Mato Grosso do Sul. Os discursos truculentos e retrógrados mais vaiados pelo público do cinema eram justamente os mais aplaudidos na tela pelos parlamentares e representantes ruralistas.
O divórcio entre o mundo do cinema e o mundo da política institucional, que se acentuou nos últimos tempos com os imbróglios envolvendo o Ministério da Cultura, a Cinemateca Brasileira, a escolha do representante brasileiro no Oscar etc., parece ter atingido um ponto crítico no atual festival de Brasília. O “Fora Temer” bradado no palco e na plateia do Cine Brasília a cada sessão é apenas um detalhe, a ponta do iceberg, a face visível de uma cisão mais profunda.
Há nos filmes exibidos, nos debates e nas reações do público uma energia de transformação que parece não encontrar eco nem acolhida nos edifícios oficiais bem próximos dali. Desembocando em angústia ou em catarse imediata, essa energia frustrada talvez fale muito sobre as limitações do cinema em seu afã de mudar o mundo. O sentimento generalizado é de resistência às trevas ao redor. “Todas as canções inutilmente; todas as canções eternamente”, canta Milton Nascimento em “Minas Gerais”. A ideia é essa.

Não é a discordância com vários, admiráveis colegas que me força a escrever aqui, e sim a percepção de que, não fosse o digital, Carelli teria feito de “Martírio” um filme excelente.
O digital é excelente, mas tem propiciado um hábito pouco animador: o esticamento artificial dos filmes. Como o material é barato, torna-se fácil. Como é rico em vários aspectos, torna-se difícil cortá-lo.
Tenho vistos longas que dariam bons curtas. Vi filmes que, concebidos para ser curtas, tornaram-se longas.
“Martírio” poderia ser até mesmo um filme curtíssimo. O material de arquivo bastaria, aliás: aquele jovem índio desajeitado, vestido de terno, com uma senhora tipo 10 mais elegantes ao lado, resume nossa política indigenista.
Carlos Adriano faria o diabo, só com essa imagem.
Mas há também a fala dos índios. As circunstâncias, que remontam à Guerra do Paraguai, à interminável guerra, como bem lembraria o Rosemberg (“Guerra do Paraguay”).
Sim, a situação dos índios é um horror. Desses e de outros. Coincidência ou não, já vi diversos sobre o extermínio provocado pelo contato e, depois, pela expropriação de suas terras e de sua cultura.
Isso não me leva a acreditar que um filme ineficaz, repetitivo, se torne eficaz por isso. 
Andrea Tonacci, que fez filmes belíssimos a respeito dos índios, com os índios, entre os índios, não fez nada disso.
Outro caso: o segmento de Marco Becchis para “Mundo Invisível”, em que mostra um grupo de índios com suas vestes clássicas em uma floresta. Mas à medida que se movem, percebemos que a floresta não é tão floresta assim, há sinais de civilização ali. Eles caminham um pouco mais, ruídos surgem mais claros… Breve sabemos que estão no Parque Trianon, na av. Paulista, em frente ao Masp.
Se continuasse um pouco, o filme poderia ter promovido o encontro entre esses índios e seu espelho: esses outros, esfarrapados, despossuídos, expropriados de suas culturas, que vivem à beira da estrada vendendo cacarecos.
Lembro desses momentos lancinantes porque eles também estão em “Martírio”. Mas o empenho em mostrar tudo, em lugar de montar, de cortar, de concentrar, parece fazer suas virtudes evaporarem.
Na minha visão, o amor à causa às vezes é tão grande que termina por arruinar o filme. Me parece que é o caso aqui.

A Viúva Alegre (Ernst Lubitsch, 1934)




Quase dois meses sem passar por esse espaço. Felizmente não foi por falta de filme; alternativas para escrever não me faltaram. Foi puramente escassez de tempo mesmo.

É sempre bom voltar aos clássicos, pra não dizer necessário, já que nos permite colocar as coisas em melhor perspectiva. O que dizer de um Lubitsch então? Essa foi uma das vezes em que o "Lubitsch touch" ficou mais óbvio pra mim. Honestamente, não esperava tanto de A Viúva Alegre, mas fiquei absolutamente encantado com a safadeza do diretor. O tema poderia ser desenvolvido de forma mais pesada - a versão da peça filmada por Eric Von Stroheim ao que tudo indica tem essa pegada - mas na mão de Lubitsch quase levita de tão leve.

A cena em que o mulherengo Danilo (Maurice Chevalier) é flagrado pelo Rei (George Barbier) em seus aposentos flertando com a Rainha (Una Merkel), rende a mais espirituosa sequência de adultério que eu já vi. Tá certo que é um mundo de faz de conta, em que vale tudo, mas mesmo assim ela permanece irresistível. Sem contar que a construção da gag em que o Rei se dá conta da sua condição de corno é puramente cinematográfica.

Existe um charme que perpassa toda a produção, muito pela contribuição dos atores, sobretudo os personagens secundários, que dá um refinamento desejável ao resultado final. Vale lembrar que o Código Hays passou a vigorar pouco depois do seu lançamento, poupando a produção da censura temática a que certamente ela estaria sujeita (adultério sendo uma delas).

No mesmo dia eu ainda vi A Mulher de Verdade (1943, Preston Sturges), na expectativa de que as experiências seriam semelhantes. Não me causou o mesmo entusiasmo, o que não significa que eu não tenha gostado. O olhar para os personagens secundários é preciosíssimo, no mesmo nível dos filmes de Lubitsch. Só não me pareceu tão inspirado.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

I Am Not a Serial Killer (Billy O´Brien, 2016)





Como o post anterior começou a ficar muito longo, achei melhor dividi-lo. I Am Not a Serial Killer foi a outra boa surpresa que assisti recentemente, constante na lista de melhores de 2016 do Filipe Furtado. O filme se encontra listado na Netflix, mas dificilmente eu o teria selecionado sem uma indicação previa. A lista de prioridades é tão ampla que não arrisco fazer uma escolha sem critérios.

Outra produção que parece ter saído do túnel do tempo dos anos 80 - pra quem gostou da série Stranger Things é um prato cheio. Já começa nos créditos de abertura sobrepostos às imagens captadas com um ar bem retrô de produção barata: uma fonte vermelho vivo contrastante com a monotonia monocromática de uma cidade interiorana levando a vida entre o outono e o inverno rigorosos.

O personagem principal, interpretado por Max Records, sustenta o interesse do público por toda a metragem do filme: um adolescente órfão de pai, criado pela tia e pela mãe, cuja única fonte de renda advém das autópsias dos defuntos da pequena cidade. O filho se recolhe em seu mundo, manifestando algumas atitudes depressivas com tendências suicidas, o que lhe garante um acompanhamento contínuo de um terapeuta especializado. A mãe se esforça para se aproximar do jovem, até mesmo fazendo-o participar das sessões de autópsia, mas não vê suas investidas avançarem rumo a um entendimento. O jovem incorpora todo o clichê do adolescente rejeitado: sofre bullying na escola, afasta seu interesse romântico mesmo quando tem a intenção de se aproximar, não tem amigos, etc. Dito assim, parece que o filme será uma fossa sem fim, de forma que a depressão abordada contagiará o público.

O que confere vida a essa cidade interiorana e a esse personagem mal interpretado é a mais improvável das circunstâncias: um serial killer que anda fazendo vítimas na comunidade, amedrontando seus cidadãos, sem que a polícia consiga identificar a sua identidade. O jovem, que além de depressivo é diagnosticado com um perfil de serial killer, assume informalmente a investigação do caso com desdobramentos para lá de inusitados.

Essa bizarra conexão entre o adolescente e o serial killer mantém o interesse do público aceso até o último plano. À medida que o adolescente vai se tornando mais enigmático perante o público, seu círculo de convivência vai se estreitando, forçando-o cada vez mais ao isolamento. Não tem como antecipar o seu desfecho, caloroso e chocante ao mesmo tempo. Christopher Lloyd e Max Records nasceram para desempenhar esses papéis.

O Hóspede (Adam Wingard, 2014)




As últimas três semanas me proporcionaram experiências cinematográficas bastante ricas. Faz algum tempo que não tenho selecionado qualquer filme do meu arsenal "alternativo" à disposição, orientando minhas escolhas basicamente pelas programações correntes da Netflix e da Net (Now). Mesmo com a oportunidade de encaixar algumas sessões de cinema nesse período, com Elle (2016, Paul Verhoeven) e John Wick 2 (2017, Chad Stahelski) em sequência, não será deles que escreverei nas próximas linhas. Os dois filmes que justificaram este post foram O Hóspede (2014, Adam Wingard) e I Am Not a Serial Killer (2016, Billy O' Brien), o primeiro na Net e o segundo na Netflix.

De Wingard eu conhecia apenas o terror cult, ainda presente na Netflix, You're Next (2011). O blog do Ronald Perrone, Dementia 13, relacionou o filme em alguma das suas inúmeras listas, me fazendo o imenso favor de apresentá-lo. Se a memória não me falha, Perrone tentava eleger os melhores filmes de terror a partir dos anos 2000, logo após o lançamento de A Bruxa (2015, Robert Eggers) no início do ano passado. Dessa lista passei a conhecer Adam Wingard e Jim Mickle, tendo assistido até agora dois filmes de cada. A refilmagem de A Bruxa de Blair, inclusive, ficou a cargo de Adam Wingard, gerando bastante expectativa, porém resultando numa experiência não muito empolgante (ainda não o vi, mas devo fazê-lo).

O Hóspede é um filme de suspense muito bem construído, daqueles em que o espectador torce pelo bandido, tamanho o fascínio que o personagem/ator exerce no seu imaginário. O carisma do ator Dan Stevens, que eu desconhecia completamente, é fundamental para sustentar essa condição. Em dez minutos de projeção o diretor e roteirista Adam Wingard apresenta o personagem e estabelece o tom sombrio que vai perdurar nas próximas duas horas. São poucas tomadas curtas carregadas de atmosfera - o filme se passa durante a celebração do Halloween. A estratégia adotada pelo realizador é abusar do apelo sedutor de Dan Stevens e garantir a sua conexão emocional junto ao público. Aos poucos a psique do personagem vai sendo revelada ao espectador, que passa a experimentar um sentimento de repulsa e aproximação ao mesmo tempo. O personagem carrega uma sequela devido à sua passagem pelo exército que poderia servir de "mensagem política do filme", mas é habilmente evitada pelo diretor.

O desfecho se passa todo num imóvel que está sendo preparado para abrigar a festa de Halloween da cidade, cuja decoração carrega todo o aparato característico que compõe o seu material visual. Todo esse entorno contribui para valorizar a encenação e ampliar o clima de suspense pretendido. A atriz principal Maika Monroe emplacou no mesmo ano o sucesso Corrente do Mal (2014, David Robert Mitchell), tornando-se da noite para o dia a atual musa dos filmes de terror norte americanos.

sábado, janeiro 28, 2017

Zahler, Mauro, Chazelle e Eastwood


Rastros de Maldade (2015) - o filme veio direto para o Video On Demand no Brasil levando muito tempo para ganhar um título em português. Eu me acostumei com o título original, Bone Tomahawk, dado o volume de críticas (favoráveis) em inglês publicadas quando do seu lançamento nos EUA: houve um descompasso de quase um ano entre a estreia americana e a sua disponibilidade no Brasil. O projeto ganhou uma merecida aura cult, em razão da bem sucedida mistura dos gêneros western e terror, que tende a ganhar corpo à medida que o tempo passar. As atuações estão soberbas, ancoradas pelo "carpenteriano" Kurt Russel, posando um corte de barba impecável. Ele carrega o distintivo de xerife, acompanhado pelo personagem de Richard Jenkings, numa parceria que lembra os bons momentos da dupla John Wayne/Walter Brennan. Matthew Fox e Patrick Wilson compõem o restante do quarteto, sem se curvarem diante da presença dos outros dois monstros do cinema. Na verdade, ambos têm o seu momento de estrelato, contribuindo para a densidade do relato. Filme de fruição prazeirosa. Aguardemos os próximos passos de S. Craig Zahler.


Ganga Bruta (1933) - absolutamente desconcertante. O filme antigo mais moderno que assisti recentemente. Quando o Brasil era uma terra de possibilidades concretas. Arquitetura, natureza e música combinadas à perfeição. No texto de Fernando Veríssimo para a Contracampo, o autor exclama: Quem consegue esquecer uma sequência como o flashback do protagonista evocado por uma canção entoada em seresta? Ou aquelas em que o simbolismo com forte influência freudiana irrompe inesperadamente em meio a ambientação predominantemente naturalista, como a união sexual do galã Durval Belline e Déa Selva? Obrigatório.


La La Land (2016) - o filme funcionou pra mim, especialmente pela parte de Emma Stone, atriz que captou minha atenção de vez a partir do subestimado Aloha (Cameron Crowe, 2015). Um musical precisa de boa música pra funcionar, e isso não falta em La La Land. Coreografia mesmo só na excelente cena de abertura, que aterrissa o espectador no filme, sem rodeios, convidando-o a abraçar a proposta. A sequência final da "realidade alternativa" elevou a produção a outro patamar: incita o publico a fazer uma busca em sua memória afetiva das "suas vidas que poderiam ter sido" - todo mundo tem uma história alternativa pra contar. Faz sentido o filme ser o grande premiado na noite do Oscar, que nada mais seria do que a Academia premiando a si mesma – Argo (Ben Affleck, 2012) experimentou a mesma condição há alguns anos atrás.


Sully (2016) – Filipe Furtado na sua tradicional lista de favoritos publicada todo final de ano extrai o essencial do filme: “Sully é o filme mais curto da carreira de Clint Eastwood com seus 96 minutos, também pudera, o que existe aqui de história para contar ocorre no espaço de uns cinco minutos entre as aves atingirem o avião e os passageiros serem resgatados. O que Eastwood extrai destes poucos minutos que ele desdobra repetidas vezes é uma pequena obra-prima sobre a reação humana diante de algo improvável, a ênfase toda em como cada pessoa, os pilotos, os passageiros, os técnicos, reagem aquela cadeia de eventos”. Outra interpretação memorável de Tom Hanks.

sábado, janeiro 21, 2017

Tão Longe, Tão Perto (Wim Wenders, 1993)



Deixe-me explicar algumas coisas. Em primeiro lugar, o tempo é curto. Para uma doninha, o tempo é uma doninha. Para um herói, o tempo é heroico. Para a prostituta, o tempo é só mais um programa. Se você for amável, seu tempo será amável. Se você estiver com pressa, seu tempo vai voar. O tempo é um servo se você for o mestre dele. O tempo é um deus, se você for o cão dele. Somos criadores, vítimas e assassinos do tempo. O tempo é atemporal.
Emit Flesti (William Dafoe)


Faz muito tempo que eu vi Asas do Desejo (1987), do mesmo Wenders, que precede Tão Longe, Tão Perto. Se Asas do Desejo não tivesse sido tão bem acolhido pelo público e pela crítica essa “continuação” dificilmente teria acontecido. Eu vi Asas no início da minha cinefilia e me recordo do impacto que a fotografia de Henri Alekan me causou, com a opção de retratar o mundo dos anjos em preto e branco e o mundo dos humanos em cores. Nem foi tanto a languidez da narrativa/edição que me chamou a atenção, tampouco a história de redenção do anjo Damiel (Bruno Ganz), ambos só vieram a me causar impacto agora, assistindo Tão Longe, Tão Perto. Vou ter que voltar a Asas para comprovar a sua superioridade sobre Tão Longe, Tão Perto, que desconfio se encontre no roteiro, menos detetivesco, hollywoodiano talvez, mais abstrato, filosófico talvez. Confesso que meu maior entusiasmo repousa sobre as imagens de Berlim captadas pelo fotógrafo Jürgen Jürges, estupendas, especialmente as tomadas aéreas. Mesmo tendo visitado a cidade, essa perspectiva de contemplação pelas lentes “dos anjos” não é privilégio dos turistas, só o filme nos proporciona. É como se eu a tivesse visitado novamente, redescobrindo-a – num momento chave da sua trajetória, poucos anos após a queda do Muro de Berlim.

domingo, dezembro 25, 2016

Andrea Tonacci (1944 - 2016)


“Essa coisa de grande público, isso é coisa de grana, é uma outra história, de manipulação. Os meus filmes, pessoais, nascem não para objetivos externos, estratégicos ou coisa parecida – não tem como, eles são simplesmente meus caminhos de conhecimento, de descoberta, de revelação, um processo vivo. Isso me lembra um pouco o Rossellini – “profissão: ser humano”.  O Rogério (Sganzerla) tinha um espírito assim, ele dizia “Eu cometo filmes”. No sentido de estar se aventurando mesmo...”
Andrea Tonacci

Se existe um filme que me transformou, que me ajudou a esclarecer o papel do cinema e o nosso papel como seres humanos, a nossa intervenção, influência, condição, existência, relação, esse filme se chama Serras da Desordem. Gabo-me de haver assistido a uma sessão de exceção, daquelas que ficam guardadas na memória, seja pela companhia (minha esposa), o ambiente (Cine Cauim de Ribeirão Preto), a circunstância (o próprio Tonacci  fez um bate papo conosco após o encerramento do filme), a expectativa, o pré-sessão, o pós-sessão, a discussão que se seguiu, a minha pergunta, a resposta, etc. Era o meu primeiro contato com a filmografia do Andrea Tonacci, de cara com um filme que havia colhido vários prêmios e elogios por onde passara. Mesmo consultando as calorosas resenhas e críticas nos extintos sites da Contracampo, Paisá e nos blogs ativos dos principais jornais do país, nada foi capaz de me preparar para o impacto dessa experiência, dessa rica fruição que reverbera no meu inconsciente até hoje.

Na época da minha sessão, no final de 2008, o Cinema Marginal passava por um momento de reconhecimento e (re)valorização, fomentado pelas retrospectivas proporcionadas por cineclubes e cinematecas, que permitiu a minha geração ter acesso a obras praticamente desconhecidas, reorganizadas e recuperadas pelos sobreviventes que as experimentaram no contexto social, político e cultural do seu nascedouro. Pouco tempo depois, a extinta Lume Filmes lançava a coleção Cinema Marginal, estreando comercialmente em DVD o inclassificável Bang, Bang (1971), do próprio Tonacci. O contato com a obra desse grande autor, em todas as esferas, sempre foi muito enriquecedor, construtivo e, por que não, pedagógico. Mesmo gozando de uma cinematografia curta, Andrea Tonacci vai fazer muita falta.

O trecho abaixo foi extraído do livro Serras da Desordem, organizado por Daniel Caetano, cujo capítulo derradeiro é uma extensa entrevista com o próprio Tonacci à luz da estreia do seu filme. O curto trecho que abre essa postagem foi extraído dessa entrevista.

Daniel Caetano – Para começar, gostaria que você comentasse um pouco sobre o processo que o levou a fazer o filme. Você havia feito alguns filmes com comunidades indígenas, como Os Arara e Conversas no Maranhão, e o histórico de aproximação cultural com os índios sempre levou a um questionamento da nossa sociedade a partir do contato com outra sociedade...

Andrea Tonacci – O que me levou a fazer o filme foi a busca de conhecimento, o desejo de um humanismo ainda possível, a defesa do livre ser, meu, de qualquer um, dos índios... Bem, a gente fala hoje dos índios porque eles sobreviveram, mas na verdade qualquer encontro como este, entre culturas que nunca se viram, nunca se tocaram, tem um processo de reconhecimento – ou desconhecimento – do outro, de mútua e imediata interferência de um no outro. Esse me parece ser um movimento básico, quase embrionário, espasmódico, celular, da humanidade, e não apenas uma característica da nossa, vamos generalizar, da nossa expansão cultural tecnológica em relação aos índios. Um índio pode ter a mesma coisa em relação a outro índio, como também pode ter em relação a nós. Quando existe um contato que não é pela marra, que não é pela força como normalmente tende a ser, esse contato eventualmente também pode ser um desejo do outro, e não só nosso em encontrá-lo. Não é o que ocorre com os índios isolados, a curiosidade deles é uma coisa, a criação de uma dependência, o contato, é outra. Então eu acho que essa relação que a gente estabeleceu com algumas tribos não é um caso particular, e acho que é oportuno de ser observado porque é algo que temos muito próximo aqui, de nós, em nós, esse ser outro que é o índio brasileiro, esse outro que fica isolado em uma floresta a quatro mil quilômetros daqui, mas que não nos é diferente no que concerne a devastação da floresta interior. O filme é uma forma de ir até lá, reconhecer-se.

E para isso ele pode ser assustador, porque o homem branco tem a pólvora, tem a força...

Bem, este processo é bastante louco. Teve uma vez, quando fiz Os Arara, num período em que a gente ficou parado em um posto de vigilância do Funai no Pará, ficou tudo muito calmo durante meses...Até que um belo dia, num fim de tarde, os índios atacaram o posto. Teve gente flechada e o cacete. Foi uma ação do tipo em que eles chegaram devagar e enfiaram as flechas por entre as tábuas dos alojamentos, silenciosamente, nas frestas, para flechar a gente lá dentro. Mas o que gerou isso, quando durante aqueles meses todos houve trocas de presentes? Até então era aquela relação de visibilidade sem ver o outro, de uma tentativa de aproximação sem agressividade... Que não era uma pacificação, na verdade era uma tentativa de desarmar as tensões, já que pacificação parece ser uma coisa na marra, e o que era feito era um esforço de desmontar a agressividade, diminuir a pressão externa sobre os Arara, esse era o trabalho do Possuelo. Então, o que aconteceu? Bem, depois de alguns dias chegou a informação de que, a uns cinquenta quilômetros de lá, dentro do território dos índios, máquinas do Incra, a serviço de uma prefeitura de não-sei-onde, pagas por um invasor qualquer para retirar madeira, entraram em território indígena, derrubando tudo no caminho, pra tirar madeira durante uns três ou quatro dias – bem rápido, pra não dar tempo do Ibama fazer nada. Eles avançaram lá dentro e, no dia seguinte, os índios nos atacaram. Aquele grupo não tinha conhecimento se o pessoal era o mesmo da Funai ou não. Para eles, era tudo a mesma gente, brancos, vindos de fora, entrando ali, a mesma turma. Então tem muitos casos, muitas coisas que ocorrem nesse processo e mostram como a gente não sabe do Outro. Essa questão do desconhecer o Outro sempre me foi atraente, não particularmente por ser índio, mas porque o índio tem a possibilidade de ser esse ‘o mais outro possível’. Mas esse Outro é o ser humano, é você, é cada um de nós diante de alguém, é o mundão...